Estava um belo dia…final da tarde com o sol ainda brilhando enquanto a lua matreira espreitava. Os motores do avião aqueciam...o meu coração batia cada vez mais forte ao pensar que dentro de pouco tempo estaria com ela. Já imaginara o nosso encontro de mil formas…e continuava a criar outras na minha mente. Parti, eu, e o piloto daquele pequeno avião particular, a caminho daquela que me esperava após a surpreender com uma chamada minha a avisar da minha ida. Tudo calmo, continuara a pensar nela, mas aproveitava também para apreciar a bela paisagem a vários pés de altitude. Fazia-me ter inveja das aves que livremente voam, tendo aquela paisagem a um bater de asas.
Mas subitamente…surge algo do nada, uma tempestade, um problema técnico, nem percebi bem… apenas senti um peso no estômago quando o avião começou a perder altitude rapidamente, acabando por se afundar nas bravas aguas do mar.
Perdi os sentidos…acordei deitado sobre a areia de uma pequena praia. Olhei em redor, vendo apenas agua a minha volta, e um denso arvore no centro do pequeno pedaço de terra onde me encontrava. Estava cansado e esfomeado…felizmente consegui ser mais rápido que os caranguejos que me souberam melhor que nunca, antes do que seria um longa noite...
Levantei-me de manha um pouco recuperado, mesmo assim a fome apertava. Não vi outra solução além de penetrar o denso e vasto matagal que quebrava o cenário marítimo. A muito custo, fui cuidadosamente desviando-me de todos os ramos, ervas e animas inesperados que se foram cruzando no meio caminho (só me apetecia voltar para trás…mas era tarde demais), seguia em busca de alimento, mas não encontrava nada.
Apenas mais obstáculos para passar, mais ramos para me ferir, mais plantas para me picar, mais animais para me assustar! Por fim cheguei ao limite das minhas capacidades… estava esgotado! Não tinha encontrado alimento e não fazia ideia como sair de dentro daquela floresta! Despejei a minha raiva em forma de pontapé na pedra mais próxima, que estranhamente se desfez sem me desferir qualquer dor…foi então que reparei que era branca por dentro. Não era uma pedra mas sim um coco, caído do recheado coqueiro onde estava encostado a descansar. Senti a minha sorte a mudar e fui buscar forças ao fundo do meu ser, para conseguir trepar o coqueiro e saciar-me.
Seguiu-se uma merecida noite de sono…
Chegou-se mais uma manha, mas sentia que desta vez seria diferente, tinha recuperado as minhas forças e a sorte parecera do meu lado. Mais calmo e confiante, tive a ideia de trepar a uma árvore bem alta que tapava qualquer raio de sol que insistia sem sucesso na sua chegada ao chão macio que me embalou. Do topo da árvore consegui avistar…terra!!!! “TERRA A VISTA!!!!” gritara eu fazendo milhares de aves levantarem voo da copa das inúmeras arvores que me rodeavam. Por entre o arvoral se notava as magnificas margens de um continente a alguns quilómetros de água.
Desci…comi mais alguns cocos e ganhei coragem para enfrentar as perigosas aguas que me afastavam da minha oportunidade de encontrar o meu amor. Não fazia ideia da distância, do tempo que demoraria… mas sinceramente não queria pensar nisso! Não tinha nada a perder…se morresse pelo menos seria com um rosto de realização pois tinha dado o melhor de mim e feito tudo o que estava o meu alcance!
Por fim entrei, no que poderia ser o fim, sem olhar para trás… sem medo, nem receio. As horas foram passando o meu folgo desgastando-se, mas a corrente ajudava-me imenso a esperança de reencontrar o meu amor, fazia o meu corpo renascer das cinzas e encontrar sempre forças para um nova braçada.
O sol começara cair quando me aproximava o suficiente para conseguir avistar o que se passada na margem. Via um enorme paredão com bastante agitação. Vultos “para trás e para a frente” presos nas suas rotinas, mas o que me chamou a atenção foi uma mulher que me parecera desligada de tudo! Já a olhava a horas e esteve sempre parada, o mais próximo possível da beira do paredão e olhando para o mar. Fui-me aproximando cada vez mais da margem tendo o cuidado para que ela não me visse. E com a proximidade reparei que chorava…estava profundamente triste ditando algumas palavras que não conseguia entender. Cheguei a terra e caminhei silenciosamente pelas rochas da berma para que consegui-se ouvir a conversa.
Ela estava a suplicar ao mar:
Oh Iemanjá,
Majestade dos deuses, senhora dos oceanos,
Odo iyá!
Lhe peço…
Traga meu amor que esta distante
O proteja em sua viagem…
Envolva-o em seu manto azul
E não deixa que nada lhe aconteça!
Óh minha mãe Lemanjá,
Atenda a meu pedido!
Estou morrendo de angustia,
Sem ter noticias de meu amado.
Preciso de um consolo para meu coração aflito.
Fazei senhora e rainha das aguas,
Que a espuma das bravas ondas do oceano,
Me traga, são e salvo, meu amor de volta!!!
A doçura da voz trouxe-me recordações, que fizeram despertar pensamentos que tentava esconder de mim próprio dada a sua improbabilidade. Mas era certo que coincidências eram inúmeras. Alias, não havia duvida, a mulher que despertara tão vistosamente a minha atenção era a mesma que a muito me roubara o coração! E chorara naquela altura por mim! Não podia mais olhar para aquela angústia. Procurei um local entre pelas rochas, por onde subi uns metros a frente. Segui lentamente em sua direcção. E suavemente coloquei as minha mãos tapando os seus lindos olhos…ela assustou-se um pouco! Devia pensar que era um ladrão, pois começou a lamentar-se, chorando profundamente:
Pode levar tudo,
A minha vida já não faz sentido…
Ate ela pode levar!
Apenas queria saber quem e!!?
E foi então que lhe disse…
Sou uma dádiva de Iemanjá, meu amor!
Lutei com todas as minhas forças sempre na esperança de reencontrar você.
E parece que a deusa das águas esteve do meu lado.
E a trouxe você para junte de mim, onde a quero para sempre…
O intenso beijo que se seguiu, marcou o início de uma longa história de amor.
Enquanto algures Iemanjá sorria sentindo a magia do amor pairando no ar.
Continua numa vida perto de si….
Roubaste-me...
Há 9 anos

